Onde Tamanduateí deságua no Tietê (?)

 

 

 

 

Agora só pigarro, nenhuma coroa, nenhum mestre, nenhuma trindade;

Quando o pôr-do-sol tufar com riso e me acordar no Tietê sanguíneo,

Desritmada a emoção como cardíaco, sem jardim e sem vila,

Certo, o solícito senhor que quer ferro, pede baixinho, inclinado,

Seu pente quente era pobre demais, eram migalhas sem porcos,

Sem igrejinha com o seu sino, sem ouvidos de tudo que desfolhou,

 

Nem terno, nem piedoso, só uma gota, sem a ceia marinha.

Nas margens, uma quase cama que o dormente mata a fome.

Nenhum ser iria se hospedar a esse leito, só uma paca,

Nenhum repouso, nenhum rancho alegre e muitos carros

E isto é tudo! Só cinda de gari borrado, só cravo catado no lixo como fosse prata.

Nenhuma praia, nenhum sorvete, nenhum cardume:

 

 — Bebe odores do Tamanduateí, arriado, carregado —

Do lodo que manha um moço doente e não era sobre o mangue,

Só cardaços sem aldeias, nem lua cheia bordava para a Eternidade.

Não era assim feia, só que o lírio morre quando atravessado pela cidade.

 

 

 

 

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3 Comentários em “Onde Tamanduateí deságua no Tietê (?)”


  1. É foda, meu! Baita escrito! Abraço!

  2. Fabio R. Says:

    Dear friend usagi,

    esse discurso ácido( talvez de ácido?) lembrou-me muito
    Allen Ginsberg no seu “A queda da América” lançado ak em 1987. Uma das passagens preferidas minhas desse livro é o poema “Asas sobre o buraco negro” vai ai um trechinho:

    “apartamentos urbanos, depósitos de carvão e rios pardos
    torres meros brinquedos perto da ponte prateada
    súbita a serpente desenrosca
    com milhares de escamas de granito
    rodando no acesso ao viaduto de aço George Washington”….

    Na verdade existem vários dos chamados “estados de iluminação filosófica” no seu poema como o 2ºverso (quando o pôr..)o 6º e o 12º.São imagens que poderiam gerar alguns margikais(haicais marginais)

    Pra fechar esse (post)comment um de improviso:

    cabeça de plástico
    boiando nas negras águas-
    carros no crepúsculo

    See ya


  3. É um texto muito forte, Coelho. Muito forte.
    De volta aos blogs, passei aqui para deixar um abraço.
    Unicórnio Azul


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