Soluço maluco
Talvez você que me lê
Pergunte de tantas estrofes,
E esteja ainda nos golpes,
No caminho que se vê.
Soluço vem por dentro,
Pedaço como remendo,
De tudo que é o defeito,
Me refaço, me enfeito.
Que faço esta trilha como faixa
Dessa música, com a sua companhia,
De certo, com nariz e grande rabo.
Ainda é tempo – e por mais
que os ventos não te percebam,
sinta com que cor os ventos
desgastam o nosso rosto
vazio, lá indo dar cabo
à nossa missão desejada.
Vivemos em zombaria,
muita coisa foi minguada,
daqueles tais diferentes
de ti; sou um solitário,
encosto-me todo dia
num tal soluço maluco,
um distúrbio cuidadoso,
aperto e relo os braços,
enlace mesmo está
em demasiado aperto,
tão amarrados embora
eu os tenha amputado.
Mesmo soluço maluco
não me deixa, não me cala.
Tags: maluquice, poema, poesia, soluço
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Novembro 22, 2008 at 10:34 pm
Baudelaire, escreveu em “As Flores do Mal” um poema exclusivamente dedicado ao leitor:
Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.
——–
Creio que você capitou neste poema toda o significado utopico do ato da escrita, que já intrigava antes mesmo dos “les poét maudit” aprenderem a pular amarelinha,principalmente no contexto contemporâneo onde o que parecer importar é a velocidade da informação e não sua qualidade.Você parece aqui acreditar na “diagnose” de seu leitor em relação ao que é poesia e ao que é o mundo, não passar tudo mastigado e isso dá muito crédito a sua análise dos “problemas contemporâneos”.
Novembro 22, 2008 at 10:59 pm
Agora continuando aquela nossa interface de “blogueiros” , que estrutura poética você tem tido mais satisfação em utilizar(as clássicas, a modernas), porque creio que isso é de acordo com o estado psicológico de que escreve, e também de acordo com o tema, sei lá, podemos tentar escrever sobre o Obama, mulheres,politíca,arte, cinema, e creio que a forma decidiremos de acordo com o tema e os nossos anseios pessoais momentâneos.Bem, vou mandar ai mais pra frente alguns versos descompromissados vc manda os seus e a gente faz mesmo o que der vontade.Agora pra facilitar se vc tiver Orkut adiciona lá: http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=3781423243095390019
e assim facilitamos a comunicação,
e finalizando mais um comntário/post:meus textos realmente não são nada muito de
“serem um guia pra alguma coisa” não existe nenhuma ambição de passar mensagens, até porque não sou uma das pessoas mais recomendadas pra isso, eu tento é mesmo deixar alguma em aberta pra a imaginação de quem lê.
Apesar de muitas vezes cair mesmo e na tal de “linguagem hermética”, culpa do meu “sadomasoquismo”.
Um abço
um abço
Novembro 24, 2008 at 1:43 pm
Esse poema do Baudelaire é demais!!!! Ele sacaneia o leitor no início e depois é só imagem sombria ou burlesca… No final “xinga”, mas se iguala o leitor.