Barulhos urbanos (composições barulhentas)
A buzina. O roncar dos carros. As obras de construção que não param. Os tiros dos fuzis. Barulho ou música? Pra muitos compositores o barulho vira música.
Se o poeta, como dizia Mallarmé, torna mais puras as palavras da tribo, ele também deveria tornar mais puros os barulhos que a tribo faz. E por que não os barulhos animalescos de nossa tribo urbana?
Luigi e Antonio Russolo – Corale 1921
Nos idos anos 20, o barulho da agitação maquinal fez música aos ouvidos de Luigi Russolo Ele ouviu música do zumzumzum citadino, nas então novas urbes européias. Inspirado no novo alvoroço, criou até um conjunto de instrumentos, batizado de intonarumori (literalmente, “intonadores de barulho”). Entretanto, seus instrumentos foram abafados por um barulho ainda maior: na II guerra mundial, os intonadores foram destruídos num bombardeio à Itália.
Em Corale, há uma mescla dos ruídos fundos, vindos dos “intonadores”, com os poucos instrumentos mais tradicionais. Notamos claramente a tentativa de fusão entre o ruído e o som. Às vezes, eles se sobressaem e, em seguida, entram em harmonia.
Edgar Varèse – Poème életronique (1958 )
Na minha opinião, quem mais purificou os barulhos urbanos foi Varèse. Mesmo que possamos considerar Varèse como o pai fundador do estudo da música eletrônica no circuito erudito, também podemos considerá-lo como o pai fundador da composição barulhenta. A ele, credito a idéia de orquestrar os ruídos, com os ouvidos em busca de uma melodia.
Aprofundando um bocadinho: Varèse buscava dar corpo à matéria bruta do som. A essa matéria deu o nome de proteiforme, palavra criada a partir da figura grega Proteu.
Segundo o compositor, o deus grego possui o poder de se metamorfosear: “ele transforma as massas sonoras em cores de timbres, jogos de interações recíprocas, liberadas do jugo de um sistema“. Nesse sentido, o som já está no ruído, ou melhor, já está na proteiforme. Para que ouçamos o som do ruído, basta que deixemos que ele crie sentido em nós. Nos remeta a um significado emotivo…
Nesta música, procure identificar os diferentes ruídos a seus causadores (sinos, britadeiras, furadeiras, etc). Nem sempre isso será possível. No entanto, é uma brincadeira interessante pra quem não aguentar o “barulho” que a música faz…
A bossa da bala perdida – mixed by coelhoo’clock
A primeira composição barulhenta é in memorian ao silêncio do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa onde nasci. Nela, a música vem do asfalto e o ruído vem pra cima do asfalto.
C E T Sampa City – mixed by coelhoo’clock
A segunda composição é dedicada aos ruídos e ao ritmo do trânsito de São Paulo, cidade onde cresci. Os ruídos aqui são de muitas coisas juntas e o ritmo é aquele do pára e anda dos carros na Marginal Tietê.
Tentei alongar a música por um período longo de tempo, para que a gente pudesse ouvir o tempo do trânsito na música. Mas não se assustem: ela não passa dos 4 minutos.
Tags: coelhoo'clock, Luigi Russolo, Mallarme, música eletrônica, noise music, Varèse
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